Soninha: um exemplo de que idade não é desculpa
Uma das melhores coisas de fazer o Caminho da Fé em grupo é, sem dúvida, conhecer pessoas. E, entre todas que encontrei ao longo da peregrinação, a Soninha foi a mais guerreira e corajosa de todas.

Ao chegar em Águas da Prata, na pousada onde o grupo do Alemão se encontraria um dia antes do início da caminhada, fui conhecendo aos poucos as pessoas que dividiriam comigo os próximos 12 dias. Alguns já experientes, fazendo o caminho pela terceira ou quarta vez. Outros, iniciantes como eu, cheios de dúvidas e ansiedade.
Entre todos, logo se destacou uma jovem senhora que completaria 70 anos poucos dias após o término do Caminho. Sônia, que rapidamente virou Soninha, estava ali a convite de sua cunhada, a Marli.

Logo no primeiro dia, Soninha já arrancou gargalhadas do grupo inteiro e criou bordões que nos acompanhariam por todo o percurso. O mais famoso deles foi o “Misericórdia, Marli!”, repetido a cada vez que surgia uma subida pela frente e que virou até figurinha de WhatsApp.
No segundo dia, em uma parada para descanso próxima a um campo de oliveiras, Soninha pediu para que o Alemão a levasse de carro pelo restante do caminho. Alemão, com sua experiência silenciosa, disse que sabia reconhecer quando um peregrino estava realmente precisando de ajuda e que não era o caso dela, e seguimos a pé.
Como de costume, Alemão ficava um pouco para trás e depois nos ultrapassava de carro, para nos esperar no próximo ponto de descanso. Foi nesse momento que nasceu o segundo bordão mais famoso do Caminho.
Ao ver o Alemão passando, Soninha gritou: “Seu Véio safado!”
Quase choramos de tanto rir.

Mas Soninha não é apenas engraçada. É amiga, acolhedora e adora falar sobre cozinhar. Marli garantia que ela cozinhava muito bem e nós acreditávamos. Além disso, descobrimos uma tática: sempre que percebíamos que ela estava cansada ou desanimada, puxávamos conversa sobre comida do tipo: “Soninha, como é que se faz uma boa feijoada?”
Pronto. Ela disparava a falar e esquecia completamente que estava há varios quilômetros subindo uma serra.
No terceiro ou quarto dia, ao chegar na pousada, Soninha disse à Marli que iria desistir. Que para ela não dava mais. Depois de muitas tentativas de convencê-la do contrário, Marli pediu ajuda ao Alemão.
E aí, caro(a) leitor(a), o buraco é mais embaixo.
Alemão é um psicólogo formado pela na universidade da vida. Em poucos minutos de conversa, conseguiu convencer Soninha a continuar e esse novo ânimo não foi só dela, mas sim de todo o grupo, pois Soninha faria muita falta a todos.
Com o passar dos dias, fomos conhecendo melhor sua história. Soninha havia ficado viúva recentemente e falava de seu marido sempre com orgulho e um brilho especial nos olhos.
Uma das revelações mais surpreendentes foi quando ela contou que odiava esportes. Sim, odiava. Não gostava nem de assistir, muito menos de praticar. Disse nunca ter feito atividade física na vida.
E lá estava ela, prestes a completar 70 anos, caminhando mais de 20 quilômetros por dia, subindo e descendo morros, sempre com bom humor.

Se você está lendo esse texto e acredita que idade ou condicionamento físico são limites insuperáveis, pense com carinho. Soninha é um exemplo de força de vontade e determinação. Um exemplo que, muitas vezes, me impediu de reclamar de qualquer dor ou cansaço.
Ela mostrou que, se conseguimos acordar, levantar da cama e dar um passo, o que nos limita não é o corpo, é a nossa cabeça. Nosso cérebro primitivo tenta nos “proteger” o tempo todo, muitas vezes de coisas que nem sequer vão acontecer.
Durante o Caminho, Soninha passou a me chamar de anjo, pelas vezes em que a ajudei nas subidas e por tê-la acompanhado em quase toda a jornada*.
Mas a verdade é que, no Caminho da Fé, ninguém caminha sozinho. Sempre há anjos dispostos a estender a mão.

E foi assim, juntos, que eu, Soninha e tantos outros amigos, chegamos a Aparecida após 320 quilômetros em 12 dias.
Não quero dizer aqui que qualquer pessoa pode ou consegue fazer o Caminho da Fé, independentemente de tudo. Cada um tem seus limites, e a peregrinação só deve ser feita com consciência das próprias condições de saúde.
O que quero dizer é que a única coisa que não deve nos limitar é a nossa mente.
Dê uma chance à vontade. Dê uma chance à coragem. Dê uma chance à vida.
A idade não te limita. O que te limita é o medo.
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Se conhece alguém que está dizendo ser velho demais para o Caminho da Fé, compartilhe esse artigo para que ele saiba que o caminho só pede que levamos até ele duas coisas: fé e saúde, o resto, ele se encarrega de entregar.
PS: eu disse “em quase toda a jornada” por que muitas vezes Soninha disparava na frente e nos deixava pra trás. Principalmente se tivesse outra companhia com uma caixinha JBL (hahahaha) Te amo Soninha.
Que Deus e Nossa Senhora Aparecida abençoe você e sua família.
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